Costumo ler alguns textos sobre ateísmo. Do alto de sua liberdade religiosa, atacam os teístas partindo de um princípio simples: a existência de Deus não é provada e, portanto, por via das dúvidas e da completa falta de evidência, ele não existe. Não teria problema com isso se esse discurso fosse argumento peremptório no debate. Ateísmo e positivismo parecem irmão siameses.

É um argumento que não faz sentido quando analisamos sob a ótica de que a fé e até o ateísmo é uma posição com boa dose de subjetividade. Não se chega, ou ao menos não ocorreu assim comigo, a uma idade e após um período de grande reflexão, a conclusão da inexistência de Deus aparece.
Segundo Diego Quinteiro, “Não escolhi não acreditar em Deus. A maioria de vocês também não escolheu suas crenças. Não há deliberação consciente entre crer e não crer, é resultado subconsciente das informações que o mundo lhe oferece.”
Assim como a taxa de ‘ajuda divina’ nos pedidos, a probabilidade de Deus existir está entre 40 e 50%. Já há teorias que permitem a criação do Universo sem influência de um ser superior. Acreditar ou não nele é uma opção pessoal basicamente sustentada por dois pilares: nossa personalidade, formada basicamente na infância e a história de vida.
Segundo Agnes Heller, “a compreensão do mundo é parte fundamental da formação da personalidade. Desde criança, começamos a formar certa imagem do mundo, e o desenvolvimento da personalidade depende do modo pelo qual conseguimos compreendê-lo corretamente. A criança sempre pergunta: por quê? E é precisamente a causalidade o motivo fundamental da curiosidade da criança. Por que o sol brilha, por que chove, por que temos de comer isso ou aquilo, por que não posso fazer isso ou aquilo, por que tu és minha mãe? E, ao lado do por quê, há sempre o como.”
A leitura da compreensão de Heller sobre a formação da personalidade humana ilumina o assunto. O desenvolvimento intelectual da criança passa por perguntas básicas como as indicadas pela autora: a existência do sol, da chuva… A resposta comum da maioria das pessoas com fé seria: ‘o papai do céu criou para iluminar nossa vida no caminho de Jesus Cristo’ ou ‘é o papai do céu chorando’. Chorando, mas por quê?
Defender uma educação ateia parece ser demais para o momento. Entretanto, torna-se óbvia que uma educação religiosa indicará outra compreensão de mundo, enfim, outra visão. A mentalidade formada poderá ser de um teólogo cristão, inteligente e que debate a questão com propriedade e com suas convicções. Ou a mais comum: uma legião de alienados que atribuem a Deus a causa de todas as coisas. Desde a criação da vida na Terra até perder o emprego.
Mais do que isso, as experiências de vida contribuem ou não para um desenvolvimento que levará da fé cega a uma fé questionadora ou ao ateísmo. Contudo, como criticar uma pessoa que se livra de uma doença rara e acredita ser por intervenção divina? Que não há provas? Mas, ora, se a prova dela é ela mesma?
Não cabe a nós, que aspiramos a entender racionalmente o mundo e, com isso, provar a inexistência de Deus, duvidar da visão teísta. Cabe a nós, enquanto ateus, não acreditar em Deus porque essa é a sua, a minha e a nossa certeza; apresentar argumentos que sustentem essa visão. Ser ateu não é negar. É entender de maneira diferente. Um caminho que decidimos seguir e pelo qual encontramos os melhores resultados práticos.
Com o pensamento científico, os ateus tentam demonstrar-se intelectualmente superiores aos que acreditam em Deus. Arriscaria dizer que somos arrogantes. Fosse o ateísmo tão óbvio quanto tentamos demonstrar, não seríamos minoria – crescendo, mas minoria. Ora, se queremos analisar racionalmente e, mais, tendo a Ciência como grande substrato do conhecimento ateu, devemos, como cientistas – humanos, diga-se de passagem -, levar em conta todas as hipóteses. Dentre elas, a hipótese da existência divina.
A compreensão desta hipótese só se torna possível quando analisada sob um ponto de vista histórico – é arriscado dizer, por ora, sobre uma análise geográfica, sobre o espaço e a religião.
Seria repetição dissertar sobre a diferença entre os seres humanos pré-históricos e os atuais, isto é, dizer que pelo pouco conhecimento acumulado, a influência divina pareceria a mais correta e mais do que isso, a única.
A hipótese do ateísmo só foi possível quando os conhecimentos acumulados levaram, aí sim, intelectuais a pensarem sobre a necessidade da existência de Deus. Tal esclarecimento coincidiu com o período cientificista do século XVIII e XIX e que permaneceu predominante até meados do século XX. O crescimento do ateísmo coincide com a criação do método positivo que indicou os caminhos para as ciências: a objetividade e a experiência.
Porém, a ciência evoluiu e o próprio positivismo ao qual o ateísmo está intimamente ligado deu lugar a outros métodos, embora o método comteano persista fortemente nas ciências experimentais.
Obviamente, o ateísmo não é uma ciência ou um campo disciplinar. Mas poderíamos falar em um ateísmo fenomenológico? Ou, de maneira mais aberta, em um ateísmo neokantista ou idealista?

Ora, parece claro e os argumentos do texto demonstram que não é a inexistência de Deus que se apresenta ao sujeito, o homem. É o contrário: o homem interpreta o mundo de modo a negar a existência de Deus e outros de maneira a ter fé nele – criando uma fé questionadora, o contrário seria impossível devido à inexistência da interpretação.
Enfim, o texto visa a, quem sabe – não vi qualquer coisa que negou o “positivismo ateu” -, apresentar uma proposta sobre o ateísmo que o desvincule de sua origem “experimental” mas que o torne aberto a novas concepções e a aceitar as abordagens contrárias, sobretudo a crença em Deus. Entender a crença em Deus e aceitar que pessoas possuam essa crença não é uma oposição à argumentação de que Deus não existe, é apenas mais um argumento.
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